A Sombra Negra de Barbie
Publicado em 2012-08-20 na categoria SexPose / Galerias


Não fosse pelos encaixes de membros que denunciam subtilmente a construção dos corpos plásticos, as imagens bem que poderiam ser de jovens reais. Eis que a silhueta inventada pela indústria do brinquedo, esguia e longilínea em demasia para a proporcionalidade de seios fartos e uma micro-cintura, já pode ser identificada ou projectada nos corpos de verdade. Trata-se do fato industrial produzindo uma realidade.

Modelo de beleza feminina, instantaneamente criado, desde o lançamento do produto no mercado norte-americano no início dos anos 1960, a Barbie sempre teve proporções consideradas impossíveis de serem reproduzidas em mulheres reais.

Ironicamente, enquanto feministas norte-americanas queimavam sutiãs em praça pública, a Barbie passava a ocupar locais privilegiados nas prateleiras das lojas de brinquedos, com sua figura loira de olhos azuis, sexy, magérrima e ao mesmo tempo curvilínea, vestida com modelos justos, preferencialmente na cor rosa e tons afins.
Essa imagem emblemática passou a encaixar-se como luva, correspondendo à perfeição a uma sociedade em que a infantilização do adulto se equiparou à erotização precoce da infância. E onde nada escapa à mercantilização.

Há vários anos, a artista Patrícia Kaufmann tem trabalhado com as tensões produzidas pela imagem padronizada da Barbie de maneira consistente, articulando forma e conceito em suas múltiplas leituras. Transformando a Barbie em seu principal problema artístico, Patricia passou a perseguir seus desdobramentos. Criou, num primeiro momento, séries de pinturas em telas, utilizando máscaras que demarcavam os contornos da boneca nas posições frontal ou lateral.

As telas, pintadas com misturas feitas artesanalmente, utilizando pigmentos e base acrílica, funcionavam como um contraponto à massificação da imagem da boneca-mulher. Essa mesma ideia aparecia também nos desenhos, feitos sobre papéis artesanais com padronagens diversas. Escolhidos sempre a partir de uma combinação de tons, que vai de rosas a vermelhos, os papéis se tornavam panos de fundo, tingidos de matizes consideradas tipicamente femininas, contrastando com silhuetas negras desenhando o corpo da boneca.

Numa outra abordagem, trabalhando então com a tridimensionalidade, a artista passou a criar instalações feitas com objetos e com as próprias bonecas, colocando-as em situações cotidianas, ora grotescas, ora irônicas, ligadas aos absurdos da erotização contemporânea padronizada. Nessas séries, muitas vezes recobertas de uma dramaticidade kitsch, Barbies era cenograficamente inseridas em contextos clichês como o da pole dance, dos bairros de prostituição como o Red Light Zone, de Amsterdã, ou a revista Playboy.

Na série atual, focada no suporte fotográfico, Patricia Kaufman mantém o símbolo, mas modifica seu foco sobre ele. Ao invés de pinturas ou cenários com luzes e cores exuberantes, ela cria fotografias de sombras escuras, onde o corpo da boneca aparece desnudado das roupas e acessórios. O ambiente também é cru, desprovido de detalhes ou cenografias.

Não se engane, entretanto, com a sutileza dessas novas imagens. Apesar da aparência de tons rebaixados, as fotos carregam em si uma sensação incômoda e perturbadora. Elas nos fazem pensar nos desvios da percepção e na condição pós-humana em que vivemos, onde muitas vezes as regras que estão lá fora penetram por dentro de nosso corpo e nossa pele, e nos incutem formas de ser, viver, aparentar.

O perturbamento dessa nova série começa pelo próprio título, Sombra Negra. Ora, a sombra não é a imagem do objeto em si, mas sua projeção virtual. Nas fotos da artista, as bonecas-mulheres são escurecidas em relação ao fundo de luz estourada, mas o que está ali é o próprio corpo de plástico. Ou não é?

As sombras, o lusco-fusco, a insinuação das silhuetas fazem transparecer um argumento assustador e dramático, ligado a uma nova realidade sobre o ícone Barbie: a possibilidade de confundir suas formas com as de mulheres de verdade.

Se antes tínhamos como certo de que as proporções corpóreas vendidas pela indústria do plástico eram sem correspondência no corpo real, agora a vida imita o produto criado: nessa quase confusão entre o ser animado e o inanimado, a artista nos coloca num espaço sufocante e sem saída. Suas imagens delicadas parecem nos lembrar, afinal, que estamos desesperadamente buscando projetar no espelho a imagem idealizada de um ser de plástico.

Carne e plástico, humanidade e artifício, objeto e virtualidade, claro e escuro são oposições que se desdobram na linha constante que atravessa essa série de fotografias. Vemos Barbies com seus contornos de corpos desnudos, às vezes apenas em detalhes fetichizados, como os pés calçados com saltos altíssimos, outras vezes em duplas femininas cujos corpos se tocam, como nas capas de revistas pornôs, outras ainda estampando posturas sexuadas, como o corpo deitado com quadris elevados.

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