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As mulheres dos outros
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Quem diria que uma caixa de cromos antigos, encontrada numa feira de antiguidades e cuja única identificação era “Nus artísticos”, iria render alguma coisa… Pois rendeu! A Fauna Galeria (São Paulo), fez uma exposição denominada “Mulheres dos outros” do fotógrafo Eduardo Muylaert. que, a partir dos cromos fez novas revelações e recortes (ocultando os rostos, é claro).É uma estética totalmente diferente do que temos hoje e feito com uma releitura deliciosamente carregada em cores e efeitos belíssimos. Para ver a exposição «Mulheres dos Outros», cliquem no link que indicamos a seguir para poderem fazer uma visita virtual pela galeria: www.mulheresdosoutros.com.br A seguir, reproduzimos uma entrevista feita ao autor. Como surgiu a idéia do trabalho Mulheres dos Outros? EDUARDO MUYLAERT – Como todos os meus trabalhos, surgiu de um achado. Uma das coisas que dão graça à vida são as res derelicta, os objetos insólitos deixados ao longo do caminho, sabe-se lá por quem. Na minha vida de advogado, além de criminalista que sou, fui Procurador do Estado. Na vida civil, vivo procurando. Procurando o quê? Uma coisa, uma imagem, uma idéia que tenha alguma ressonância. Uma lembrança perdida ou abandonada por alguém, às vezes em outra época, que descubro fazer parte das memórias que me faltam. O retrato do corpo desnudado é um registro universal, desde a idade da pedra lascada. Por outro lado, as figuras kitsch de outras épocas alimentaram o nosso inconsciente coletivo, se tornaram nossas lembranças também, numa espécie de herança icônica. Redescobrir esses signos e atualizá-los traz tanta alegria quanto inventar uma vacina. É um pouco como a cura de uma doença, vencer a luta contra os fungos destruidores, as manchas do tempo, e o pior dos males, o esquecimento. Em vez de descartar, podemos reciclar, energizar, reinterpretar. Tirar o bolor, ou transformá-lo em sabor, tipo gorgonzola ou roquefort. Ou mesmo penicilina, esse anacrônico antibiótico.
Há quanto tempo se dedica a ele? EDUARDO MUYLAERT – Os slides foram encontrados há alguns anos, numa velha caixinha posta à venda na feirinha do MASP, em São Paulo. Foi na banca do Severo, que já não existe mais. Por fora, uma anotação manuscrita em vermelho, nus artísticos, o suficiente para despertar minha insaciável curiosidade. Não dava bem para ver as imagens, desbotadas e empoeiradas. Apos breve negociação, com falso ar de desinteresse, fixou-se em cem reais o preço do objeto de desejo. Naquele momento eu já sabia que dali ia sair um trabalho e, para mim, a ocasião de trabalhar novamente com a imagem do corpo feminino. Depois de relativamente longa hibernação, pus a mão na massa e comecei a re-fotografar os cromos, a olhar para eles, criar familiaridade. Mas foi no escâner que eles voltaram à vida, com suas ricas imperfeições. As ferramentas de restauração da cor acabaram por gerar uma nova escala cromática. E os cortes, dando novo enfoque, que excluiu propositalmente os rostos, completaram a transformação. Difícil acreditar que o ponto de partida foram as sofridas pinups dos anos 50. Mergulho no tempo? Não é preciso ser Einstein ou Jung para saber que o passado sobrevive em nós, mas que nós é que lhe damos forma. Haja terapia, ou arte. Mulheres dos Outros está fortemente ligado à vertente da apropriação na arte, da elaboração de um novo ponto de vista a partir de uma imagem como referência e base para a construção de outra. Esta é uma questão inerente a um outro ensaio seu Galeria dos Grandes Mestres da Pintura. Nos fale sobre esse processo de re-fotografar. EDUARDO MUYLAERT – No princípio era o Verbo. Vi Joan Fontcuberta falar da saturação de imagens, ouvi fascinado Joachim Schmidt falar e mostrar seus trabalhos feitos a partir de imagens de outros fotógrafos. Custei a me dar ao luxo de adentrar essa seara. Como hermeneuta, treinado para interpretar normas, fui buscar argumentos nas leituras de arte contemporânea. Afinal, me convenci de que estava tudo certo. Vivemos num mundo de palimpsestos, esses pergaminhos que são apagados para dar lugar a novos textos, sem perder parte dos traços originais. Num universo que ameaça desaparecer, pela ação destrutiva da humanidade, é importante contarmos com estratégias de engenharia reversa, que permitam reencontrar, ou reinventar, as fontes perdidas. Esse outro ensaio, A Galeria dos Grandes Mestres da Pintura, caminha nessa direção. O rico Museu de Dresden, na Alemanha, quase foi destruído durante a Segunda Guerra. Por volta de 1900 as obras de Rembrandt, Durer, Murillo, Rafael, haviam sido fotografadas em branco e preto e reproduzidas. Numa feirinha, sempre as feirinhas, achei algumas dessas copias separadas por um tênue papel de seda, que havia acumulado tinta ao longo de um século. Esse foi o meu negativo, a gerar copias por contato em papel fotográfico que, digitalizado por escâner, serviu de matriz das novas imagens. Uma alegria brincar com a obra dos Grandes Mestres, sem muita reverência. Se o Museu, da próxima vez, não escapar da destruição, ainda restarão, no meu ensaio, seus cavalheiros e suas madonas. Hiper-texto, meta-linguagem, essa moda pegou e não poupa nem mesmo a literatura. A semiótica que o explique.
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