Quando tudo se resume a sexo
Publicado em 2012-07-27 na categoria Sexo100Censura / Adicções sexuais


Seduzir, conquistar, pagar se for preciso. A vida de um viciado em sexo centra-se na busca de parceiros por uma noite. Só quando a vida mergulha no caos se percebe que é preciso parar. A adição sexual: conheçam as histórias de uma dependência ainda muito mal conhecida pela generalidade das pessoas...

"Não disse nada aos amigos e no trabalho também não contei a ninguém. Se uma pessoa disser que é alcoólico é facilmente aceite pelos outros. Se disser que é toxicodependente, as pessoas percebem que há tratamentos. Mas ninguém compreende que alguém não seja capaz de controlar os seus impulsos sexuais". João (nome que escolheu para ocultar a verdadeira identidade), tem 55 anos e é viciado em sexo. Depois de um internamento numa clínica portuguesa diz que hoje consegue resistir aos impulsos e garante que já não tem relações sexuais há cinco anos. Mas o monstro que lhe consumiu a vida durante quase dez anos ainda vive na sua cabeça: "Tenho vontades. A minha preocupação é tentar fazer outra coisa que me distraia desses pensamentos".

Dependência sexual, desejo sexual hiperactivo, adição. Os especialistas defendem termos diferentes para um comportamento que João define de forma simples: "Durante anos eu só pensava em sexo. Era incontrolável. Recorria a prostitutas, chegava a ter relações sexuais pagas três ou quatro vezes por semana".

A obsessão de João começou pouco depois de o pai ter morrido. Tinha 42 anos. "Recebi algum dinheiro da herança e fiquei a tomar conta do negócio do meu pai. Nunca tinha tido tanto dinheiro e foi isso que me fez perder o controlo". Técnico industrial numa fábrica da região de Leiria, começou a frequentar casas de alterne e a responder a anúncios de prostitutas publicados nos jornais. "Era como um garoto. Nessa altura o dinheiro não era obstáculo, fazia tudo o queria".

João começava a planear ir à procura de uma prostituta de manhã e já não conseguia pensar em mais nada". Tinha de ir. Sentia prazer quando tinha sexo, mas depois ficava arrasado: "Mas que m*, pensava eu. Foi a última vez, nunca mais cá volto". Mentia a si próprio. Voltava sempre, mas nunca à mesma mulher. "Procurava pessoas diferentes. Queria sempre mais, experiências mais fortes, mas acabava sempre infeliz". Fechou a porta a qualquer relação sentimental. "Nunca procurei ter uma namorada. Só queria a satisfação da parte física e para isso tinha as prostitutas".

O mundo de João começou a desmoronar-se quando a família se apercebeu dos desfalques na conta bancária da loja. A irmã confrontou-o e ele não teve como escapar. "Contei-lhe tudo e ela deu-me duas hipóteses: Ou procurava ajuda para me tratar ou então ficava sozinho, sem dinheiro e sem apoio de ninguém".

A escolha não foi imediata, mas João acabou por se render. Aos 50 anos chegou à clínica Villa Ramadas, perto de Alcobaça, especializada em problemas de adição. Nos quatro meses seguintes ficou internado, a reaprender a viver. Hoje diz-se um homem diferente, mas ainda há temores que não passam. "Continuo a não ter namorada e não sei se quero ter. Nunca mais tive relações sexuais, tenho medo do que possa acontecer".

Eduardo Silva, psicólogo, é o responsável clínico da Villa Ramadas. Explica que já receberam cerca de 10 pessoas para tratarem problemas de adição sexual, quase todos homens e na sua maioria estrangeiros. "Fazemos terapias individuais e em grupo, em regime de internamento que pode ir até aos seis meses. Também trabalhamos com dependentes químicos (viciados em drogas) e misturamos os grupos nas sessões terapêuticas. O sintoma da procura do sexo é só o produto final de um vazio que já existe. A pessoa está incompleta". O psicólogo define a adição como "um hábito forte que se transformou em padrão. É problemático quando a vida familiar e profissional se torna um caos. Quem fica obcecado sexualmente mergulha num carrossel de emoções que não consegue controlar".

Luís Duarte Patrício, médico psiquiatra e ex-director do Centro das Taipas – que trata toxicodependentes – alerta para os vários perigos associados a comportamentos sexuais descontrolados. "A adição ao sexo é um comportamento que pode levar à dependência, sobretudo quando a ausência de sexo provoca sofrimento. Podemos falar em síndrome de abstinência, como acontece com as drogas". Um vício nunca é inócuo. O psiquiatra alerta ainda para outros danos, mais imediatos, "quem sofre este tipo de perturbações pode assumir comportamentos sexuais de risco. É fundamental falar de higiene e do perigo das doenças sexualmente transmissíveis".

É uma patologia mais frequente nos homens e associada a pessoas com alto poder de compra. A profissão também pesa: "Profissões ligadas ao turismo, hotelaria ou relações públicas são mais propícias a muitos contactos com outras pessoas, o que pode ajudar à progressão da patologia", explica Luís Duarte Patrício.

Em Portugal, a dependência sexual ainda é um conceito relativamente recente. Santinho Martins, endocrinologista e sexólogo, admite que teve pacientes que se queixaram de sofrer deste problema, mas ele não deu importância. "Eram pessoas que estavam a ser tratadas no âmbito de outras patologias. Na altura não havia muita sensibilidade em relação ao tema da adição sexual e desvalorizei esses comportamentos. Hoje talvez tivesse agido de outra forma", conta.

Os grupos de ajuda mútua, baseados no método dos doze passos – criado para alcoólicos e toxicodependentes – são frequentes noutros países. Em Portugal, existe pelo menos um grupo, a funcionar em Lisboa, que usa um espaço cedido pela paróquia de Santo António de Campolide. O coordenador explicou à Domingo que o grupo "funciona há cerca de três anos e meio e reúne pessoas com vários tipos de adição". Sob a denominação Adictos ao Amor e Sexo Anónimos (com o blogue http://www.aasalisboa.blogspot.com), o grupo tem recebido homens e mulheres que se confessam adictos ao sexo, mas também adictos ao amor – pessoas que vivem relações ou fixações amorosas que as fazem sofrer e das quais não se conseguem livrar. Apesar de se utilizar um espaço da Igreja, não há uma conotação religiosa nas sessões.

"Reunimos todos os domingos. O que faz funcionar o grupo é que as pessoas estão num ambiente anónimo e sentem-se à-vontade para partilhar as suas experiências e ouvir as histórias de outras pessoas que conseguiram ultrapassar o problema", explica o coordenador, que prefere não referir o seu nome. Já passaram por este grupo "cerca de 25 pessoas" com adição sexual, metade dos quais são mulheres. "Já tivemos casos de viciados em sexo com estranhos ou pessoas que recorrem à prostituição e mesmo à pornografia na internet", explica o responsável. Habituado a ouvir histórias de viciados, o coordenador do grupo aponta a dificuldade masculina em aceitar o problema: "A sociedade em que vivemos ainda é muito machista. Se um homem tem sexo com muitas mulheres é vangloriado, o que atrasa muitas vezes a consciência do problema". Mas não sente que as experiências de homens e mulheres sejam diferentes, quer na forma como se comportam durante o período aditivo, quer na forma como encaram a recuperação.

Em Inglaterra, os grupos anónimos de viciados em sexo estão espalhados por todo o país. ‘Mary’, de 51 anos e com dois filhos com idades à volta 20 anos, frequenta um desses grupos há três anos e meio. A inglesa conta à Domingo que tem desde sempre "uma longa história de "infidelidade mental, fantasias sexuais e paixões". ‘Mary’ confessa-se viciada em pornografia e erotismo literário, o que a levou a dar o passo seguinte – um dia, as intenções passaram à prática e dormiu com um colega de trabalho. "Estava casada há 20 anos e fiquei muito chocada por conseguir fazer uma coisa tão fora do meu código moral. Não tinha o menor sentido de culpa, estava preparada para mentir e enganar. Deixei o meu trabalho, pensando que isso seria o fim da relação extraconjugal, mas percebi que não conseguia deixar de ver o meu amante".

Viu na televisão reportagens sobre adictos sexuais e começou a investigar o assunto. Leu o livro de uma especialista e ficou convencida de que era uma dependente. Depois, descobriu os grupos anónimos de viciados em sexo e decidiu partilhar a sua história. "Cheguei sozinha à minha primeira reunião, que era exclusivamente masculina. Isto pode ser ou aterrador ou sexualmente estimulante para uma mulher. Precisava de um patrocinador, em relação ao qual não podia ter qualquer atracção, o que é um problema para uma mulher que entra numa comunidade maioritariamente masculina. Arranjei um patrocinador masculino que não estava interessado em mulheres".

O método dos 12 passos – em que o primeiro é a admissão de que existe uma dependência – resultaram numa "revolução espiritual" para ‘Mary’. Hoje diz que "para qualquer pessoa com adição há sempre o risco de recaídas", mas considera estar "mais apta a evitar os hábitos mentais de desenvolver fantasias ou um pensamento obsessivo".

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